Alguns projetos fazem parte da nossa história mesmo quando deixam de fazer parte do nosso trabalho atual. A coleção Bauhaus é um desses projetos para mim.

Há alguns anos, desenvolvi uma série de acessórios inspirados nos princípios visuais e conceituais da Bauhaus, explorando formas geométricas, linhas, cores, contrastes e diferentes possibilidades de composição. Naquela época, eu também trabalhava diretamente com a criação e fabricação desses acessórios. Hoje, esse não é mais o meu foco. Não fabrico nem comercializo esses produtos atualmente.
Meu trabalho hoje é dedicado exclusivamente ao design e à modelagem 3D de joias, desenvolvendo projetos para marcas, joalherias e profissionais que precisam transformar ideias em peças bem estruturadas e prontas para seguir para a produção. Ainda assim, gosto de revisitar esse projeto porque ele representa uma parte importante da minha trajetória.


Minha inspiração na Bauhaus
A Bauhaus sempre me chamou a atenção pela maneira como aproximou arte, design, arquitetura e artesanato. As formas geométricas, as linhas simples, os contrastes, as cores e, principalmente, a preocupação com a relação entre forma e função foram algumas das características que me inspiraram nesse projeto. Minha intenção era trazer essa linguagem para os acessórios, criando peças com uma estética contemporânea e bastante gráfica.
Experimentando formas e materiais
Na coleção, trabalhei principalmente com resina e com processos artesanais de fabricação. Eu mesma participava de diferentes etapas da construção das peças, desde a criação dos moldes até processos de acabamento, lixamento e polimento.
Essa experiência me permitiu explorar de maneira muito prática questões que continuam presentes no meu trabalho até hoje: forma, proporção, volume, detalhe, acabamento e construção tridimensional. Embora o projeto fosse voltado para acessórios, ele também foi uma forma de experimentar como uma referência artística poderia ser transformada em um objeto tridimensional.


Um registro de uma fase do meu trabalho
Hoje, olhando para essa coleção com a perspectiva que tenho, vejo esse projeto como parte de um caminho que foi se transformando ao longo dos anos. Eu não trabalho mais com a fabricação desses acessórios, mas a experiência continua fazendo parte da minha formação e do meu olhar como designer.
Meu foco atualmente está no design de joias e na modelagem 3D, áreas nas quais posso aplicar esse mesmo interesse por formas, proporções, detalhes e construção, agora direcionado especificamente ao universo da joalheria. Por isso, mantenho a coleção Bauhaus aqui como um registro do meu portfólio e da minha trajetória profissional.
Ela não representa um produto disponível atualmente, mas uma fase importante do caminho que me trouxe até o trabalho que desenvolvo hoje.
Do design de acessórios ao design de joias
Revisitar trabalhos antigos também é uma maneira de perceber como o nosso processo criativo evolui. Muita coisa mudou desde aquela época, mas algumas coisas permanecem: minha curiosidade por formas, meu interesse pela construção tridimensional e minha atenção aos detalhes.
Hoje, canalizo tudo isso para o desenvolvimento de joias em 3D, criando projetos que podem ser visualizados, ajustados e preparados para a etapa de produção. Se você chegou até este projeto procurando conhecer o meu trabalho atual, convido você a conhecer meu portfólio de design e modelagem 3D de joias.
Há quem concorde comigo que moda e arte caminhem juntas, não é? Conheça meu portifófio com todos os acessorios de moda que já produzi, em resina, argila, corda, couro e pedras semi-preciosas.
Um pouco sobre a Bauhaus
Para entender melhor a inspiração por trás desse projeto, vale voltar um pouco no tempo. A Bauhaus surgiu em 1919, na Alemanha, em um período de grandes transformações provocadas pela industrialização. Depois da Primeira Guerra Mundial, a produção em massa ganhava cada vez mais espaço, enquanto o trabalho artesanal perdia importância e as condições de trabalho nas grandes indústrias eram bastante difíceis. Foi nesse cenário que começou a se formar uma nova maneira de pensar a relação entre arte, artesanato e produção.

Uma das referências desse pensamento vinha do movimento Arts & Crafts, que defendia a valorização do trabalho artesanal e questionava a perda de qualidade e de significado provocada pela produção industrial em massa. O movimento teve como uma de suas principais figuras o inglês William Morris, que defendia uma aproximação maior entre arte, trabalho e cotidiano.
Em 1919, o arquiteto Walter Gropius fundou a Bauhaus em Weimar, reunindo diferentes áreas artísticas e quebrando a separação tradicional entre artista e artesão. A escola propunha justamente essa aproximação.
Ali, diferentes conhecimentos conviviam: metal, mobiliário, tecelagem, cerâmica, madeira, fotografia, teatro e outras áreas. A ideia era experimentar, cruzar conhecimentos e pensar o design a partir daquilo que nos cerca.

Arte, artesanato e tecnologia
O que mais me interessa nessa história é justamente essa tentativa de aproximar mundos que muitas vezes eram vistos como separados. A Bauhaus não queria simplesmente preservar o artesanato diante da industrialização. Havia também o desejo de entender as novas possibilidades que a tecnologia oferecia e pensar como elas poderiam ser incorporadas à criação.
A produção poderia ganhar escala, mas sem abandonar o pensamento sobre forma, função e estética. Foi dessa combinação que surgiu uma linguagem visual que se tornou muito marcante: formas geométricas, linhas retas, cores mais puras, contrastes entre cores primárias, preto e branco e uma exploração bastante livre dos materiais. Esses elementos foram algumas das referências que me levaram a desenvolver a coleção de acessórios.

As mulheres na Bauhaus
Existe também uma parte dessa história que considero importante lembrar. Quando o manifesto da Bauhaus foi publicado, cerca de 150 estudantes se inscreveram, e muitas delas eram mulheres. Apesar disso, elas encontraram diversas barreiras dentro da própria escola.
Grande parte das mulheres era direcionada para a oficina de tecelagem, porque essa atividade era considerada, naquele contexto, mais adequada ao universo feminino. Mesmo diante dessas limitações, muitas dessas mulheres tiveram uma atuação pioneira e deixaram uma contribuição importante para a história da Bauhaus e do design. Essa parte da história mostra que a Bauhaus foi uma escola de ruptura em muitos aspectos, mas também estava inserida nas contradições sociais de seu próprio tempo.
De Weimar a Dessau
A trajetória da escola também foi marcada por mudanças políticas. Em 1924, a Bauhaus passou a sofrer forte oposição em Weimar e precisou procurar um novo lugar para continuar funcionando. A cidade escolhida foi Dessau, onde a escola ganhou um novo edifício que se tornou um dos grandes símbolos da arquitetura moderna.
O prédio traduzia visualmente muitos dos princípios que orientavam a escola: linhas retas, grandes superfícies de vidro, formas simples e uma arquitetura voltada à funcionalidade. Foi também durante esse período que a direção da Bauhaus passou por diferentes mãos.
Walter Gropius deixou a direção para seguir sua carreira como arquiteto e foi sucedido por Hannes Meyer. Mais tarde, em 1930, Ludwig Mies van der Rohe assumiu a direção, período associado à valorização ainda maior da simplicidade e da ideia de que “menos é mais”.


O fim da escola, mas não das suas ideias
A Bauhaus enfrentou novamente fortes pressões políticas com o crescimento do nazismo. Em 1932, a escola deixou Dessau e se estabeleceu em Berlim. No ano seguinte, em 1933, acabou sendo fechada. Mas o encerramento da escola não significou o desaparecimento de suas ideias.
Muitos de seus professores, artistas e alunos deixaram a Alemanha e levaram consigo os conhecimentos e princípios desenvolvidos na Bauhaus. Nos Estados Unidos, essa influência ganhou força. László Moholy-Nagy, por exemplo, criou a Nova Bauhaus em Chicago, enquanto Walter Gropius continuou sua trajetória como arquiteto e professor. Dessa maneira, a Bauhaus deixou de ser apenas uma escola alemã e passou a fazer parte da história internacional do design.

O que me atrai na Bauhaus
Quando olho hoje para a coleção que desenvolvi naquela época, consigo perceber claramente essas referências. As formas geométricas, as linhas retas, os contrastes, as cores, a combinação de materiais e a relação entre arte e objeto estão presentes no projeto. Mas, para mim, a Bauhaus vai além de uma estética que pode ser reconhecida visualmente.

O que realmente me interessa é a maneira de pensar o processo criativo: experimentar, misturar conhecimentos, aproximar diferentes áreas e buscar novas possibilidades a partir dos materiais e das tecnologias disponíveis. Foi essa liberdade de experimentação que me inspirou quando desenvolvi esses acessórios.
Hoje, meu trabalho está concentrado no design e na modelagem 3D de joias, e muitas dessas questões continuam presentes na minha maneira de criar.
A coleção Bauhaus ficou no passado, mas algumas das perguntas que estavam por trás dela continuam fazendo parte do meu trabalho: como transformar uma ideia em forma? Como equilibrar estética, função, proporção e material? Como fazer uma peça existir antes mesmo de ela ser produzida? É nesse ponto que vejo a conexão mais interessante entre aquele projeto e o que faço hoje.
Os acessórios não são mais produzidos ou comercializados por mim. Eles permanecem aqui como parte da minha trajetória e como registro de uma fase em que eu estava experimentando materiais, formas e possibilidades — experiências que contribuíram para construir o meu olhar como designer de joias.