Arte e Moda: como a arte inspira grandes coleções

Arte e moda caminham juntas há décadas. Grandes estilistas transformaram pinturas, esculturas, movimentos artísticos, cores e formas em roupas e acessórios que entraram para a história.

A relação entre arte e moda não acontece apenas quando uma obra é reproduzida em uma estampa. Muitas vezes, a influência aparece nas cores, nas formas, nas proporções, nos materiais e até na maneira como uma coleção é construída.

É justamente essa relação que torna a moda uma linguagem tão próxima da arte. Neste artigo, vamos conhecer alguns exemplos marcantes dessa conexão e entender como diferentes artistas e movimentos influenciaram grandes coleções de moda.

Por que a arte influencia a moda?

A arte oferece aos designers um enorme repertório visual. Uma pintura pode inspirar uma paleta de cores. Uma escultura pode se transformar em uma silhueta. Um movimento artístico pode orientar a construção de uma coleção inteira. Por isso, quando observamos a história da moda, encontramos diversas coleções que dialogam diretamente com artistas e movimentos artísticos.

A relação também funciona como uma forma de traduzir uma referência cultural para outro meio: aquilo que antes estava em uma tela, escultura ou instalação passa a existir sobre o corpo.

Mila Cook e a relação entre arte, moda e design

A relação entre arte e moda também está presente no trabalho da Mila Cook. Um exemplo é a coleção inspirada na Bauhaus, movimento que trouxe para o design uma forte presença de formas geométricas, linhas, materiais e cores primárias.

Na coleção da Mila Cook, essas referências foram transformadas em acessórios produzidos artesanalmente, mostrando como um conceito artístico pode ser reinterpretado através do design.

→ Conheça também: Moda e Arte: coleção Mila Cook inspirada na Bauhaus

Essa relação entre referência, conceito e objeto é uma parte importante do processo de criação de acessórios: a inspiração não precisa ser copiada literalmente. Ela pode ser transformada em uma nova linguagem.

Yves Saint Laurent: quando a arte entra na moda

Poucos exemplos mostram tão claramente a relação entre arte e moda quanto Yves Saint Laurent. Em 1953, o estilista buscou inspiração nas formas e cores de Henri Matisse para criar estampas. Mas foi em 1965 que essa relação ganhou um dos seus exemplos mais conhecidos: a coleção inspirada nas obras de Piet Mondrian.

As linhas retas e os blocos de cores presentes nas pinturas do artista foram reinterpretados nas modelagens e estampas dos vestidos. O resultado tornou-se uma das referências mais lembradas quando falamos sobre moda inspirada na arte. Yves Saint Laurent também trabalhou com referências de artistas como Picasso, Wesselmann, Braque e Serge Poliakoff.

Mais tarde, obras de Vincent van Gogh também apareceram em suas criações, incluindo referências aos famosos girassóis e às tulipas. Claude Monet foi outra referência utilizada pelo estilista, mostrando como diferentes períodos e linguagens da história da arte podiam ser incorporados à moda.

Arte e moda em ordem cronológica

A influência da arte na moda não se resume a Yves Saint Laurent. Diversos designers e marcas encontraram nos artistas uma fonte de inspiração para desenvolver coleções.

1937 — Schiaparelli e Salvador Dalí

A parceria entre Elsa Schiaparelli e Salvador Dalí é um dos exemplos mais emblemáticos da aproximação entre surrealismo e moda. Em 1936, Dalí criou o famoso Telefone Lagosta. No ano seguinte, Schiaparelli levou a referência para a moda em um vestido branco com uma grande lagosta estampada.

Vestido de Schiaparelli com lagosta inspirado em Salvador Dalí
Telefone Lagosta – Salvador Dalí
Criação de Elsa Schiaparelli inspirada no universo surrealista de Salvador Dalí
Vênus de Milo com Gavetas -Salvador Dalí

A relação entre os dois continuou em outros projetos. Uma das referências foi a obra Vênus de Milo com Gavetas, de Dalí, reinterpretada em uma peça em que os botões faziam referência à escultura. Nesse caso, a arte não funcionou apenas como uma imagem aplicada à roupa. Ela ajudou a transformar o próprio objeto de moda em uma manifestação visual.

2002 — Jean-Charles de Castelbajac e Keith Haring

O trabalho de Keith Haring também encontrou espaço na moda. Em 2002, Jean-Charles de Castelbajac incorporou elementos reconhecíveis da linguagem gráfica de Haring em sua coleção. As figuras e linhas características do artista passaram a ocupar as peças de roupa, aproximando o universo do grafite e da cultura urbana da criação de moda.

Coleção de moda inspirada na linguagem gráfica de Keith Haring

2007 — Galliano para Dior e os grandes mestres da pintura

Para celebrar os 60 anos da Dior, John Galliano desenvolveu uma coleção inspirada em diferentes artistas. Entre as referências estavam Mark Rothko, Claude Monet e Edgar Degas. As diferentes linguagens artísticas foram reinterpretadas em roupas que aproximavam pintura, cor, textura e construção de silhueta.

2008 — Hannah Hoyle e Andy Warhol

A imagem de Marilyn Monroe criada por Andy Warhol também chegou ao universo da moda. Hannah Hoyle utilizou a famosa representação de Marilyn em um vestido, transformando uma imagem já conhecida da cultura pop em elemento central de uma criação de moda. Posteriormente, outras marcas também utilizaram referências à obra de Warhol em roupas e acessórios.

Moda inspirada na obra de Andy Warhol e no retrato de Marilyn Monroe

2009 — Kriemler para Akris e Claude Monet

As pinturas de Claude Monet oferecem uma referência especialmente interessante para a moda por causa das cores, da atmosfera e da maneira como a luz aparece em suas obras. Na coleção da Akris, as cores suaves associadas à pintura impressionista foram traduzidas para vestidos de tecidos leves. Aqui, a referência não está apenas na reprodução de uma obra. A própria atmosfera visual de Monet é reinterpretada através do tecido e da construção da peça.

Coleção de moda inspirada nas pinturas de Claude Monet

2012 — Louis Vuitton e Yayoi Kusama

As famosas bolinhas de Yayoi Kusama são uma das linguagens visuais mais reconhecíveis da arte contemporânea. Em 2012, a artista colaborou com a Louis Vuitton em uma coleção que levou seu universo de pontos e repetição para bolsas, roupas e acessórios. É um exemplo interessante de como uma assinatura visual artística pode ser transformada em identidade de produto.

Coleção Louis Vuitton inspirada nas bolinhas de Yayoi Kusama
Yayoi Kusama

2014 — Gabriele Colangelo e Joachim Bandau

A série Black Watercolor, de Joachim Bandau, serviu de referência para uma coleção de Gabriele Colangelo. As formas e manchas da obra foram reinterpretadas em estampas e sobreposições de tecidos. Nesse caso, a pintura se transforma em uma espécie de linguagem para a construção visual da coleção.

2014 — Sportmax e Jackson Pollock

O trabalho de Jackson Pollock, um dos principais nomes do expressionismo abstrato, também chegou à moda. A Sportmax utilizou o chamado dripping, característica marcante da pintura de Pollock, em peças da coleção. A espontaneidade aparente das manchas e respingos foi transformada em elemento gráfico aplicado às roupas.

2014 — Opening Ceremony e René Magritte

A Opening Ceremony também explorou referências artísticas ao incorporar elementos associados a René Magritte. A união entre o universo surrealista do artista e uma marca contemporânea produziu peças que aproximavam arte, moda e cultura visual.

Peça de moda da Opening Ceremony inspirada em René Magritte

2017 — Louis Vuitton e os grandes mestres da pintura

Em 2017, a Louis Vuitton criou uma coleção de bolsas e acessórios com referências a obras de grandes artistas. Entre os nomes estavam Leonardo da Vinci, Fragonard, Ticiano, Van Gogh e Rubens. As obras apareceram nas superfícies dos produtos, mas a proposta também incorporava informações sobre os artistas e suas histórias. É um exemplo de como uma coleção pode transformar um produto em uma experiência cultural.

2017 — Osklen e Tarsila do Amaral

A relação entre arte e moda também possui exemplos importantes no Brasil. Em 2017, a Osklen desenvolveu uma coleção inspirada no universo de Tarsila do Amaral. As referências não apareceram somente nas estampas. A coleção também incorporou elementos relacionados ao estilo e aos acessórios utilizados pela artista e por pessoas próximas a ela. Esse exemplo mostra como a arte brasileira também pode gerar referências para o desenvolvimento de moda contemporânea.

2020 — Jeremy Scott para Moschino e Picasso

Em 2020, Jeremy Scott, para a Moschino, levou referências de Pablo Picasso para a coleção. As pinturas do artista foram reinterpretadas através de formas, cores e elementos em relevo. Mais uma vez, a referência artística deixou de estar apenas na imagem e passou a fazer parte da própria construção visual das roupas.

Coleção Osklen inspirada na obra da artista brasileira Tarsila do Amaral

O que arte e moda têm em comum?

A relação entre arte e moda vai muito além da inspiração estética. As duas áreas trabalham com elementos como:

  • cor;
  • forma;
  • proporção;
  • composição;
  • textura;
  • volume;
  • contraste;
  • ritmo;
  • identidade;
  • narrativa.

Por isso, uma referência artística pode influenciar uma coleção mesmo quando nenhuma obra aparece literalmente na peça. Uma designer pode observar uma pintura e se inspirar apenas na combinação de cores. Pode estudar uma escultura e transformar suas proporções em uma joia. Pode observar um movimento artístico e utilizar seus princípios para construir uma coleção.

Da referência artística ao design

Para transformar uma referência em produto, é necessário interpretar. Esse processo começa pela pesquisa e passa pela seleção dos elementos que realmente fazem sentido para o projeto. Uma designer pode perguntar: O que exatamente me interessa nessa obra? É a cor? A geometria? A textura? A proporção? O contraste ou a sensação transmitida? A partir dessas escolhas, a referência pode ser desconstruída e transformada em uma nova solução de design.

Esse processo é especialmente importante na criação de joias e acessórios, porque pequenas alterações de proporção, volume e material podem modificar completamente a percepção de uma peça.

Arte, moda e joalheria

Na joalheria, a relação com a arte pode ganhar uma dimensão ainda mais tridimensional. Uma referência bidimensional pode ser transformada em uma peça que possui volume, estrutura e interação com o corpo.

No desenvolvimento de uma joia, elementos como proporção, espaço negativo, equilíbrio visual, materiais e acabamento passam a participar da interpretação da referência. É nesse ponto que arte, moda e design de joias se encontram.

A inspiração pode começar em uma pintura, mas o resultado precisa funcionar como objeto. No trabalho de design de joias, essa passagem entre conceito e forma exige pesquisa, desenho, desenvolvimento e testes. A experiência da Mila Cook combina design de moda e joias, pesquisa de tendências, desenvolvimento de conceitos, seleção de materiais e criação de produtos, além da atuação com modelagem 3D e CAD Rhinoceros.

A arte continuará inspirando a moda

Os exemplos mostram que a relação entre arte e moda atravessa diferentes décadas, estilos e movimentos. De Dalí a Tarsila do Amaral, de Mondrian a Kusama, diferentes artistas encontraram na moda uma maneira de ampliar sua linguagem.

E a moda, por sua vez, encontrou na arte uma fonte praticamente inesgotável de referências. Mais do que copiar imagens, o desafio está em interpretar conceitos e transformá-los em novas formas de expressão. É justamente nessa transformação que o design encontra sua força.

Qual artista você gostaria de ver reinterpretado em uma coleção de joias ou acessórios?

A arte está cheia de possibilidades. E talvez a próxima grande referência para a moda esteja em uma obra que ainda não foi transformada em objeto.

→ Conheça a coleção Mila Cook inspirada na Bauhaus

→ Conheça o que torna uma joia autoral

→ Conheça o portfólio de Mila Cook


Fontes: Vogue Brasil, Bibliobelas, Fashion Network, Casa Vogue, O Mundo Vestido, Gauchazh, Juliana Bacellar, Arte Ref, Saia com Arte e News Link.
Texto original de Camila Bortolozzo reescrito por Mila Cook

FIQUE DE OLHO!

Quer que eu te conte as novidaded?

Deixe um comentário